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O Mecanismo é a nova produção brasileira original Netflix, protagonizada por Selton Mello e comandada por José Padilha. A série é inspirada no livro “Lava Jato: O juiz Sergio Moro e os bastidores da operação que abalou o Brasil”, uma das mais recentes polêmicas de corrupção do cenário brasileiro.

A série gerou diversas polêmicas e inclusive campanhas de boicote ao canal de streaming. Mas nós, do Four Geeks, não analisamos séries seguindo ideologias políticas ou pessoais. Qualquer produção é analisada tecnicamente como manifestação cultural ou entretenimento da cultura pop.

O Mecanismo é uma série inspirada livremente em fatos reais, ou seja, ela não é biográfica e nem detentora da verdade. É uma produção fictícia, e nós avaliaremos ela como qualquer outra produção.

O diretor José Padilha ficou conhecido pelo filme Tropa de Elite. E acabou sendo estigmatizado como um especialista de temáticas políticas e críticas sociais. Inclusive foi chamado para dirigir o remake de Robocop. O mesmo estilo narrativo e roteiro ácido foi utilizado em O Mecanismo, e estas características são perceptíveis do início ao fim da série.

o mecanismo - Ibrahim e Ruffo.
Ibrahim e Ruffo.

Na narrativa acompanhamos o agente da Policia Federal Marco Ruffo (Selton Mello). Investigando um esquema de lavagem de dinheiro, orquestrado pelo doleiro Roberto Ibrahim (Enrique Díaz). Porém, Ruffo descobre que o doleiro é apenas a “ponta do iceberg”. E todo o esquema faz parte de uma grande conspiração envolvendo todo o quadro político brasileiro. A descoberta deste mecanismo de corrupção destrói a vida profissional de Ruffo, o que acaba em seu afastamento da corporação e tentativa de suicídio.

A série toma um salto de 10 anos, e novamente o doleiro é alvo de investigações. E com ele, estão donos de empreiteiras e estatais, políticos, supremo tribunal federal e a própria polícia. Todos envolvidos em um grande esquema de propinas, que leva diretamente ao início da Operação Lava-Jato.

José Padilha utiliza uma linguagem pessoal com uma narrativa ácida cheia de frases de efeito para alfinetar, e em muitos momentos, causar comoção nos espectadores familiarizados com o escândalo. Mas sua narrativa toma proporções bem fictícias semelhantes a muitos filmes sobre conspiração já batidos em Hollywood. O diretor utiliza ideias obscuras, com dramatizações incoerentes para retratar um assunto sério.

O personagem de Selton Mello (Ruffo), acaba se transformando em um detetive no estilo “L” de Death Note. Um investigador inteligente e incompreendido que finge sua própria morte para ajudar na surdina uma das maiores investigações que já afetaram o país. Sua “morte” e “ressurreição” são feitas de maneira forçada e surreais.

Todo o marketing de O Mecanismo foi realizado fortemente com ênfase em Selton Mello, um ator conceituado e respeitado no cenário brasileiro. Mas o potencial do ator não foi explorado. Seu personagem fica mecanizado e sem destaque, tornando-se um mero coadjuvante e narrador que sempre toma atitudes de um total desequilibrado.

o mecanismo - Verena.
Verena.

Este fator torna-se mais evidente com a presença da Delegada Federal Verena (Carol Abras). Fiel amiga de Ruffo que assume as investigações da Lava-Jato quando o mesmo fica afastado. Carol Abras executa muito bem sua personagem, tornando a delegada Verena a personagem mais bem construída de toda a série. Ela é direta, determinada e ousada, o típico mulherão com “girl-power” para intimidar e apaixonar qualquer valentão.

As demais atuações deixam muito a desejar, parece que foram feitas com preguiça, o vilão Ibrahim sempre utiliza um sarcasmo e expressões frias que não acrescentam nada para a narrativa. As atuações em muitos momentos são sofríveis e remetem a produções como Malhação, ou seja, trabalho de principiantes.

A fotografia da série tem um aspecto documental que funciona, o mesmo estilo utilizado por Padilha em Tropa de Elite. A narrativa também ajuda a deixar claro os acontecimentos de maneira didática e objetiva. Mas seu roteiro, apesar de uma vertente tóxica, tem um clima obvio, sem graça e cheio de clichês e frases que parecem tiradas do fundo de caminhões nas estradas. Eu gostei muito da trilha sonora, principalmente da utilização da música “Bichos Escrotos” dos Titãs. As músicas são utilizadas nos momentos certos dando o efeito correto para as cenas.

O Mecanismo é um entretenimento enfadonho e mal executado com uma interessante crítica social. Todo o tempo o roteiro nos faz questionar e sentir vergonha da corrupção vigente em nosso país. O espectador é levado a refletir que a corrupção não vem só dos políticos, toda a nação é corrupta, é um fator já enraizado em nossa cultura. A série possui uma temática pouco explorada nas produções cinematográficas brasileiras. Então pela ousadia e tentativa, Jose Padilha e a Netflix merecem aplausos. Mas analisando de maneira madura, a série deixa muito a desejar.

Para aqueles que se sentiram ofendidos com O Mecanismo, sinceramente, levar em conta ou se ofender com uma produção deste tipo por causa de ideologias políticas só mostra uma grande imaturidade. A liberdade de expressão na cultura pop merece ser preservada e aplaudida.

REVER GERAL
O Mecanismo
Sempre almejei ser orfão de pais bilionários, ganhar poderes com a radiação solar ou proteger a Deusa Athena, mas "One-above-all" não concedeu - me tais dádivas. Descontente com o destino que os deuses me impuseram tornei-me um leitor compulsivo, PCgamer, série maníaco e cultuador da força. Qual pílula você quer? A azul ou vermelha ?